
Há momentos em que escrever exige mais do que encontrar palavras. Exige organizar a indignação, acolher a tristeza e impedir que o desencanto tome o lugar da consciência. É assim que me sinto diante do que tenho acompanhado no Brasil: uma cidadã que procura compreender, mas que também precisa ser ouvida.
Ao acompanhar a prorrogação da votação e as dúvidas sobre sua aplicação, senti perplexidade. Decisões que interferem em um momento tão importante da vida nacional precisam chegar à população com clareza, justificativa e orientação compreensível. A confiança nas instituições precisa ser cultivada por atitudes que permitam ao cidadão entender o que está acontecendo.
Penso, então, no jovem que depende de um ônibus para chegar à prova do Enem. Quando o transporte falha e ele encontra o portão fechado, pode perder uma oportunidade para a qual se preparou durante meses. Essa imagem me inquieta. Embora uma prova e uma eleição tenham regras e finalidades distintas, há uma questão humana que as aproxima: quanto o acesso a um direito depende de condições que o próprio cidadão não consegue controlar? Que compromisso assumimos com quem fica pelo caminho?
Não desejo que menos pessoas possam votar. Desejo que mais pessoas possam estudar, participar e construir seu futuro. Desejo um país em que o esforço para assegurar direitos alcance também aqueles que, longe das disputas pelo poder, enfrentam diariamente portas fechadas.
Presidindo três academias literárias, compreendo que a palavra pública exige responsabilidade. Minha inquietação precisa produzir reflexão. Não posso transformar suspeitas em certezas, mas também não preciso silenciar minhas perguntas. Questionar decisões, pedir esclarecimentos e cobrar coerência fazem parte da cidadania.
No próximo mês, lançaremos uma obra coletiva sobre democracia e cidadania. Nela, crianças, adolescentes, jovens e adultos compartilham suas reflexões. Entre essas contribuições, está o texto enriquecedor de um participante autista, cuja voz amplia o diálogo que desejamos construir.
Ao pensar nessas páginas, pergunto-me: que exemplo oferecemos a quem está aprendendo a participar da vida pública? Como ensinar respeito, honestidade e responsabilidade se, tantas vezes, o debate público parece recompensar a ofensa, a conveniência e a falta de compromisso com a verdade?
Democracia também se aprende na maneira como ouvimos uma criança, respeitamos uma diferença, reconhecemos um erro e prestamos contas de nossas escolhas. Quem ocupa uma função pública tem responsabilidade especial nesse aprendizado, porque seus atos alcançam muito além de seu próprio mandato.
Às vezes, sinto-me em um carrossel que gira sem descanso. Quando finalmente para, preciso descer, mas já não reconheço o chão. Nesta altura da vida, imaginar tantos recomeços cansa. Ainda assim, não quero deixar às novas gerações apenas o testemunho do meu cansaço.
Minha fé me chama a pedir a Deus discernimento para julgar com justiça, serenidade para não ferir e coragem para continuar participando. Uma reflexão guiada por Deus também precisa alcançar nossa própria conduta: aquilo que compartilhamos, as acusações que repetimos e os valores que aceitamos negociar.
O Brasil é uma terra em que tanto floresce. Seu povo trabalha, cria, ensina e insiste. A vida pública também precisa oferecer frutos à altura dessa capacidade: educação, dignidade, justiça e confiança.
Continuarei escrevendo porque ainda considero possível contribuir. Mesmo abalada, minha esperança encontra uma tarefa: ajudar a formar cidadãos que tenham liberdade para perguntar e responsabilidade para buscar respostas.
Que Deus nos dê sabedoria para reconhecer a verdade e firmeza para viver de acordo com ela, inclusive quando contrariar nossas preferências.
Mín. 24° Máx. 31°