
Assisti à série A Diplomata, da Netflix, e algumas cenas continuaram comigo depois que a televisão foi desligada. As conversas reservadas, as alianças que mudam conforme a conveniência e a distância entre o discurso público e as intenções particulares provocam uma pergunta incômoda: quanto daquilo que vemos na política acontece longe dos olhos da população?
A ficção permite acompanhar o que o cidadão raramente presencia: o instante em que uma decisão é negociada, uma informação é omitida ou um compromisso passa a atrapalhar os planos de quem o assumiu.
É nesse espaço que a questão do caráter se torna inevitável.
Negociar faz parte da política. Ouvir posições diferentes, rever uma decisão e construir acordos são atitudes necessárias à democracia. Mas um acordo precisa poder ser explicado à sociedade. Quem exerce uma função pública deve conseguir dizer o que decidiu, por que decidiu e de que maneira essa escolha atende à população.
Quando a explicação se resume à conveniência de um grupo, há motivo para questionar.
Uma cadeira pública traz responsabilidades que continuam existindo depois da eleição. A confiança recebida não pode ser tratada como autorização para qualquer escolha. Tampouco a habilidade de articular apoios substitui a competência para administrar, a disposição para prestar contas e o respeito por quem está fora dos gabinetes.
O cidadão tem o direito de perguntar a quem determinada decisão beneficia. Tem o direito de acompanhar mudanças de posição e cobrar coerência. Tem, sobretudo, o direito de receber respostas claras, sem ser tratado como alguém incapaz de compreender os assuntos da própria cidade.
Ao assistir à série, penso também no perigo de nos acostumarmos. A repetição de práticas que nos decepcionam pode transformar a indignação em resignação. Começamos a dizer que “a política é assim” e, aos poucos, diminuímos aquilo que exigimos de quem nos representa.
Eu me recuso a considerar a falta de ética uma habilidade necessária para governar.
Quero uma política em que a inteligência sirva para resolver problemas, em que a palavra empenhada tenha valor e em que assumir um cargo signifique aceitar o dever de responder pelas próprias escolhas.
A televisão pode ser desligada ao final de um episódio. A vida de uma cidade continua na manhã seguinte. E as consequências das decisões tomadas nos bastidores chegam à escola, à saúde, às ruas e à casa de cada cidadão.
O que se decide a portas fechadas precisa poder ser explicado de portas abertas.
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