
Quando o assunto é câncer de mama, o tempo é um fator importante. Identificar a doença em uma fase inicial pode mudar o prognóstico da paciente e ampliar as possibilidades de tratamento. É essa relação entre informação, rastreamento e diagnóstico precoce que ganha destaque durante o Outubro Rosa, campanha que, ao longo do mês, chama a atenção para os cuidados com a saúde das mamas e para a importância de manter o acompanhamento médico durante todo o ano.
Embora a campanha concentre ações de conscientização neste período, os cuidados não devem ficar restritos ao mês de outubro. Conhecer o próprio corpo, estar atenta a mudanças e seguir as orientações médicas de acordo com a idade e as características de cada paciente fazem parte de uma rotina de atenção à saúde.
Para a mastologista e professora da Afya Paraíba, Rafaela Montenegro, a informação tem papel decisivo nesse processo, especialmente quando permite que a mulher compreenda a importância de investigar a doença antes que ela avance. “A informação e o diagnóstico precoce mudam tudo. E aquela paciente que descobre o câncer no começo, tem uma chance de cura que supera 90%”, afirma.
A idade é um dos critérios considerados na definição da rotina de acompanhamento. Para a professora, iniciar a mamografia aos 40 anos permite observar alterações em uma faixa etária que concentra uma parcela relevante dos diagnósticos.
“A partir desta idade, acreditamos que a mamografia deve ser feita uma vez por ano. Cerca de 23% dos casos de câncer de mama acontecem entre os 40 e 50 anos. Por isso, não é preciso esperar a chegada dos 50 para começar esse acompanhamento”, explica.
A atenção, porém, não deve ficar restrita ao calendário de exames. Alterações percebidas pelas próprias mulheres também precisam ser avaliadas, principalmente quando há mudanças persistentes nas mamas.
“O principal sintoma do câncer de mama é o nódulo palpável, mas a gente não deve esperar que ele apareça para procurar o médico. Quando a mulher já consegue sentir um nódulo, isso significa que aquela lesão já atingiu um determinado tamanho. O ideal é que a gente consiga diagnosticar antes disso, por meio do rastreamento”, afirma.
Autoexame não substitui a mamografia
O debate sobre os cuidados com as mamas também passa pela forma como a mulher observa o próprio corpo. Embora o toque possa ajudar a identificar mudanças, ele não deve ser tratado como um método de rastreamento ou substituir os exames indicados para cada paciente.
“O autoexame não é o principal meio de prevenir câncer de mama. E ele não substitui a mamografia. É importante que a mulher conheça o próprio corpo, saiba como são as suas mamas e perceba quando existe alguma alteração, mas isso não significa que ela deva deixar de fazer os exames de rastreamento”, orienta a professora.
Rafaela Montenegro explica que a mulher pode incorporar a observação das mamas à própria rotina, levando em consideração as mudanças naturais que ocorrem ao longo da vida.
“É importante que a mulher conheça as próprias mamas e saiba identificar o que é habitual para ela. Para quem menstrua, essa observação pode ser feita após o período menstrual, quando é possível perceber melhor as características das mamas. Já para as mulheres que estão na menopausa, pode ser estabelecida uma rotina mensal de observação. Em qualquer situação, esse cuidado não substitui a mamografia nem o acompanhamento médico”.
Histórico familiar exige atenção individualizada
A relação entre genética e câncer de mama também merece atenção, principalmente na avaliação de pacientes que têm parentes próximos diagnosticados com a doença. Ainda assim, a ocorrência de casos entre familiares representa apenas uma parcela dos diagnósticos. “Só 10% dos casos de câncer acontecem por um fator hereditário. Ou seja, 90% dos casos acontecem ao acaso. Então, não ter ninguém na família com câncer de mama não significa que você não possa ter a doença”, afirma a especialista.
O histórico familiar também pode mudar a estratégia adotada para cada paciente. A definição do momento de iniciar os exames deve considerar a idade em que o parente foi diagnosticado e as características individuais.
“Se a paciente tem uma mãe ou uma irmã que recebeu o diagnóstico de câncer de mama aos 45 ou 48 anos, por exemplo, a gente vai iniciar o rastreamento 10 anos antes da idade em que esse familiar foi diagnosticado. Cada mulher merece uma investigação personalizada”, detalha a professora da Afya Paraíba.
Em pacientes consideradas de maior risco, a ressonância magnética pode integrar a avaliação, conforme indicação médica. Rafaela Montenegro alerta, porém, que o exame não deve ser solicitado de forma indiscriminada. Segundo a mastologista, a realização sem necessidade pode aumentar a ocorrência de falsos positivos, levando a investigações adicionais, como biópsias, além de gerar ansiedade para a paciente.
Sintomas precisam ser investigados
Além disso, a faixa etária deve ser considerada na condução de cada caso. Para mulheres mais jovens, a presença de sintomas muda a abordagem e exige uma avaliação individualizada.
“Se a paciente for sintomática, a gente vai ter que investigar. Pode ser necessário fazer uma ultrassonografia ou uma mamografia, dependendo do caso, e ela precisa passar por uma avaliação com o mastologista. Não é porque tem menos de 40 anos que não pode ter câncer de mama”, alerta.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
Diante de qualquer alteração persistente ou diferente do padrão habitual, a orientação é procurar avaliação de um profissional de saúde.
Cuidado deve continuar durante todo o ano
Para a mastologista, o Outubro Rosa cumpre um papel importante ao ampliar o acesso à informação e lembrar que a atenção à saúde das mamas não deve ficar restrita ao período da campanha. A rotina de cuidados envolve conhecer o próprio corpo, considerar características individuais e familiares, realizar os exames indicados e buscar avaliação diante de qualquer alteração.
“Não espere a doença aparecer. A gente não pode ficar restrito ao consultório esperando chegar já a doença. Eu tenho que vir aqui e dizer: faça a mamografia a partir dos 40 anos”, conclui Rafaela Montenegro.
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