22°C 26°C
João Pessoa, PB
Publicidade

A palavra ensolarada

"Ela, a palavra, enquanto isso, parece escarnecer dos dilemas do pobre escrevinhador. Seja no texto mais literário, seja no texto mais indicial, esquemático a tragédia se repete. É dilema e tamos conversados."

31/05/2023 às 14h11
Por: Nailson Júnior Fonte: Edson de França
Compartilhe:
A palavra ensolarada

A página (ou a tela para os moderninhos) em branco é o maior desafio para o escritor. Frente a frente com ela neguinho vacila, em casos extremos produz cozido de neurônios e faz expira fumaça pelos ouvidos. É um sofrimento intenso que antecede e não se extingue com a colocação da primeira palavra. Para muitos o ato de escrever beira as margens do impossível, algo aparentado com uma subida ao topo do Aconcágua sem agasalhos ou instrumentos de proteção para alpinistas. 

Mesmo no jornalismo, atividade por excelência avessa ao indefinível chamado inspiração, mais afeita aos redatores que aos escritores puro sangue, é por vezes angustiante encadear as ideias. E olhe que  processo de produção jornalística prende-se mais ao imperativo temporal (dead line) que às questões estilísticas. Ele começa, via de regra, pela coleta de informações, passa algumas vezes pelo crivo da checagem para, finalmente, chegar a elaboração do texto. Aí é a hora de elencar informações por ordem de importância, selecionar as palavras certas que condigam com a objetividade que o ofício exige e só aí começar a macular a página. É mecânico, dizem, mas não de todo liberto da angustia.

Ela, a palavra, enquanto isso, parece escarnecer dos dilemas do pobre escrevinhador. Seja no texto mais literário, seja no texto mais indicial, esquemático a tragédia se repete. É dilema e tamos conversados. É no fundo um joguinho de esconde-esconde, em que as palavras, libertas por natureza, faíscam na superfície nada límpida da mente e lançam desafios a quem queira fisga-las. “Tens uma idéia, infeliz?” – parecem perguntar. “Então, olhe para nós e escolha as melhores para dar vida aos seus pensamentos!”.

Continua após a publicidade

Creio nas palavras como entidades virtuais e, naturalmente, polissêmicas. Autônomas, sobretudo. Detestam as amarras das ideias fixas. Atraem-nos para as profundezas dos conteúdos instigantes. Namoram brincalhonas com a inventividade, com a inventação e com a criatividade, essas coisas que colorem a imaginação de quem escreve e quem, por acaso, encontra prazer em consumir textos. Amigos da palavra, um e outro, separados pela “intransponível” barreira da página em branco. A palavra é um signo linguístico que adquire materialidade na página, mas exige decifração.

A palavra detesta a preguiça. A inércia mental de quem não insiste, não martela, não se abre ao desafio de provocar uma produção textual qualquer. Abomina também a indolência de quem renega a capacidade de decifrar signos ou símbolos. O mundo só é mundo através do uso palavra. Do usufruto de seus aromas, texturas, armadilhagens. De sua capacidade imensurável de criar laços, mundos, combinações alquímicas para guerra ou para a almejada paz entre os homens. 

Se o escrevinhador, na real, quer produzir algo, elas batem a porta tal qual a flor que não se cheira da velha canção de Pepeu Gomes: “Toda manhã ela bate em minha porta, toca em minha janela só pra ver o sol entrar”. O velho cronista, do alto de seus dilemas criativos assevera: ”eu lhe asseguro que ela não é flor que se cheire, mas, mais que o sol, ensolara o coração”. A página em branco, afinal, é só mais uma rinha de esgrima entre um ente “criador” e o complicado mundo da comunicação entre as pessoas. 

 

por Edson de França  

[email protected]

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
A fogueira das polêmicas
Vida & Cultura Há 3 semanas Em Edson França

A fogueira das polêmicas

“Terminada a festa é a hora de analisar o estado de dilapidação herdado, contabilizando as polêmicas geradas durante o transcurso. Se bem que não somos disso, não é nossa natureza. Somos mais capazes de sobreviver às polêmicas e seguir em frente, sempre no aguardo das novas rodadas de desacertos.”
São João chegou
Datas Juninas Há 1 mês Em Edson França

São João chegou

“O São João é um produto que, pelas bandas do Nordeste, foi formatado e aperfeiçoado como manifestação popular com vocação para a tradição. Ganhou traços, trejeitos, dança, canto, ritmo, indumentária, moda, linguagem”.
Neste 1º de Maio
1º de Maio Há 3 meses Em Edson França

Neste 1º de Maio

Trabalha-se por que, então? Pela sobrevivência já falada, com o mínimo de dignidade, e para manter um nível de vida aceitável. Alimentação, saúde, moradia, educação, lazer, cultura e mesmo algum “consumismo básico”, afinal, ninguém é de ferro. A participação efetiva nesse mundo, parecem cantar os apologistas do sistema, se dá pela garantia do trabalho ou, em nosso meio, do emprego com um mínimo de garantias. Por esse prisma, contabilizamos milhões totalmente fora do círculo. Nada a comemorar, portanto”.
Radiografia do poder
Sociedade Há 3 meses Em Edson França

Radiografia do poder

“Poder de “permitir viver” ou “mandar matar”, como quem joga a moeda pro alto para ver se dá cara ou coroa. O vassalato é talhado para dar a vida por seu mestre ou amo. A recíproca, porém, nunca será verdadeira.”
Edson França
Sobre o blog/coluna
Nas Entrelinhas
Ver notícias
João Pessoa, PB
28°
Chuvas esparsas

Mín. 22° Máx. 26°

30° Sensação
6.17km/h Vento
65% Umidade
100% (4.41mm) Chance de chuva
05h32 Nascer do sol
05h19 Pôr do sol
Sex 27° 22°
Sáb 26° 22°
Dom 26° 22°
Seg 26° 23°
Ter 26° 23°
Atualizado às 11h03
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,65 -0,09%
Euro
R$ 6,13 +0,03%
Peso Argentino
R$ 0,01 -0,16%
Bitcoin
R$ 387,784,22 -1,61%
Ibovespa
125,943,36 pts -0.38%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
ANUNCIE AQUI
Publicidade
Vagas de Emprego na Paraíba
jooble
Lenium - Criar site de notícias