“Ouro de tolo”

“Ouro de tolo” e a ilusão de ascensão social

O importante é aproveitar a oportunidade de embalar algo como “produto” e empurrar goela abaixo para o consumo acrítico da massa”.

Edson França

Edson FrançaNas Entrelinhas

20/01/2022 11h12
Por: Nailson Júnior
Fonte: Edson de França

“Tudo em nosso tempo orbita em torno do valor. Qualquer coisa, dentro da lógica do mercado, é valorado com base na emergência ou no conceito da novidade, e da utilidade (este sempre discutível). O importante é aproveitar a oportunidade de embalar algo como “produto” e empurrar goela abaixo para o consumo acrítico da massa”. 

 

Nos conta a história que a imersão dos homens “civilizados” nos rincões inóspitos de alguns países, no processo que ficou conhecido  como desbravamento ou interiorização, foi em tudo motivado pela exploração de riquezas. Quem se metia numa empreitada dessas, fosse por ordem de governo ou por  iniciativa própria, tinha como objetivo ficar rico por meio de algum encontrão com um veio de metal precioso. Para ser bem sucedido, já totalmente tomado pela febre do ouro, era preciso estabelecer concorrências e desconfiança entre os seus pares e, sobretudo, promover a eliminação de qualquer obstáculo nativo, sobretudo homens.

Claro que o tal veio não se dava  assim às boas. Todo caminho era marcado por suor, lágrimas e rios de sangue. Afora, claro, o risco permanente de esbarrar com algo brilhante e chamativo e, no delírio extremo, encher as burrincas e sair gritando “estou rico”, para logo depois perceber que a natureza havia lhe pregado uma peça: o metal tão duramente adquirido não passava em nenhuma avaliação de valor, era puro “ouro de tolo”. 

A expressão ouro de tolo se refere à pirita, um mineral que, por conta de seu brilho e aspecto dourado, foi popularmente chamado de "ouro de tolo" durante a corrida do ouro na Califórnia, década de 40 do século 19. O compositor Raul Seixas, por sua vez, compôs e gravou uma canção com esse título. No texto Conheça o significado da música Ouro de Tolo (https://www.letras.mus.br/blog/ouro-de-tolo-significado/), Érika Freire, nos apresenta a obra como “uma crítica ácida sobre os sonhos e anseios patéticos da sociedade” e que “até hoje faz todo o sentido para compreender nossos valores em tempos sombrios e marcados pelo ódio”. 

Tudo em nosso tempo orbita em torno do valor. Qualquer coisa, dentro da lógica do mercado, é valorado com base na emergência ou no conceito da novidade, da utilidade (sempre discutível). O importante é aproveitar a oportunidade de embalar algo como “produto” e empurrar goela abaixo para o consumo acrítico de massa”.  E isso vai de sentimentos, pessoas e estados de espírito - li dia desses um texto muito interessante sobre a economia da solidão, que profetiza que num futuro próximo o indivíduo irá ao mercado comprar amigos - a bibelôs “made in China”.

O desespero por “vencer na vida” é o que atormenta, frustra e brutaliza o homem. Mais que vencer, é preciso mostrar, exibir, essa conquista. A casa bonita e bem localizada, o carro potente e de última fornada, o vestuário de griffe, o portfólio das viagens. É preciso patentear essas vitórias com fotos na rede social e com aparições espalhafatosas nos espaços públicos. É necessário aparecer e aí reside a ironia do modelo: por vezes a exibição pública não está assentada em um lastro firme e todo glamour pode sumir de repente como as alucinações no deserto.

Não há pecado nenhum em ganhar dinheiro e se estabelecer numa vida matizada pelo consumo e posse de bens. Se bem que a riqueza nem sempre é transparente quanto aos métodos empregados em sua construção e manutenção. Cala-te boca. Mas a riqueza atrai e todo mundo quer. Alguns pelo trabalho e produção, pelas estratégias de controle de poupança e investimentos, muitos pelo simples desejo de exibição.. 

Uma fase boa e a cabeça não controla a ânsia de exibir os bens e os modos de vida. Ao simples aroma de se sentir parte da alta burguesia, o indivíduo assume sua porção arrogante, indiferente, preconceituosa e autoritária. Mesmo que seja por um breve tempo, afinal finanças mal administradas um dia cessam e exibição exterior de riqueza não sustenta ninguém no topo. Carros enferrujam, iates afundam e roupas puem, afinal a riqueza não está nos bens que você exibe mas, sim, na estabilidade que você desfruta, na relação que o indivíduo consegue estabelecer entre os ganhos, gastos e fontes perenes de recursos. O resto é puro ouro de tolo.

 

por Edson de França

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
João Pessoa - PB
Atualizado às 07h47
25°
Muitas nuvens Máxima: 30° - Mínima: 24°
25°

Sensação

13 km/h

Vento

94%

Umidade

Fonte: Climatempo
Vagas de Emprego na Paraíba
jooble
Nailson Junior
Municípios
Últimas notícias
Mais lidas
ANUNCIE AQUI
Igreja Nova Vida