Ensino

Sobre a missão de ensinar

Esse dá menos trabalho e vira motivo de orgulho e hipervalorização

Edson França

Edson FrançaNas Entrelinhas

12/01/2022 13h47
Por: Nailson Júnior
Fonte: por Edson de França

“Os professores adoram o aprendiz que parece pronto. Aquele que chega, mostra desenvoltura, zero timidez, entende tudo, raciocina rapidamente, dá respostas assertivas. Esse dá menos trabalho e vira motivo de orgulho e hipervalorização. É       como se todo aquele repertório de habilidades fosse resultado das aulas do tutor circunstancial e propedeuta. À esses, o professor até dá aulas.”

É um comportamento que os pais naturalmente não assumem, mas é quase certo que, numa ruma de remelentos, há sempre um a que os genitores se afeiçoam mais. A esses o apoio é gratuito, a exibição pública de suas habilidades é perene e o elogio escorre fácil pelos cantos da boca do orgulhoso babão. Para esse o pai sempre guarda um excesso de corujice. Ele valoriza aquele que parece pronto, transbordante de aptidões e desenvoltura.

Esse é um comportamento da relação pais e filhos que, como dissemos, nenhum pai assume. Tem lá suas razões, afinal desagradar, de própria voz, um filho é gerar traumas, recalques e até cultivar, inadvertidamente, um possível desamor filial. Tal comportamento, no entanto, se repete em um ambiente onde as relações não são exatamente de pais e filhos, mas de mestres e aprendizes. Ou professor e aluno, como queiram, em sala de aula. 

Os professores adoram o aprendiz que parece pronto. Aquele que chega, mostra desenvoltura, zero timidez, entende tudo, raciocina rapidamente, dá respostas assertivas. Esse dá menos trabalho e vira motivo de orgulho e hipervalorização, como se todo aquele repertório de habilidades fosse resultado das aulas do tutor circunstancial e propedeuta. À esses, o professor até dá aulas. Para os que realmente necessitam da aprendizagem, ele cumpre horários e ofício regulamentar. Certo enfado marca essa última relação. 

Pode ser um erro, mas o pai sempre acolherá de melhor grado aquele filho que se pareça consigo. O natural portador do seu DNA, aquele mais apto a repetir seus acertos e erros. Assim como reproduzir seus pensamentos e levar suas convicções vida a fora. 

Não seria portanto um erro o professor hipervalorizar as aptidões natas ou adquiridas de alguns, desprezando o esforço de outros? Em salas de aula, a tendência é o professor se afinar com os alunos mais desinibidos e operantes. Convivi, enquanto aluno e depois professor, com profissionais entre os alunos. 

Enquanto professor, consciente do deslize fatal que isso representava, tentei (não sei se consegui) fugir dessa prática. Como aluno, contudo, mesmo tímido, sem talentos e obtuso como sempre fui, sempre me coloquei entre os medianos. Sentia, contudo, o mal causado pela atenção exagerada, o elogio fácil, a tomada como exemplo de alguns alunos - profissionais e oriundos de outras atuações e formações - na turma menos prendada.  

Qual o papel do professor, então? Não seria, fundamentalmente, ensinar? 

O pai, em sua missão, tende a valorizar aquele filho que mais se parece consigo mesmo. É como se olhasse no espelho para se deparar, bem no fundo, com a própria imagem. Em casos mais patológicos, a possibilidade de redenção, ou seja, a imagem de alguém capaz de fomentar as potencialidades que pensa ter ou que não desenvolveu a contento.

O professor, por sua vez, parece emular o comportamento dos pais. Opta pelos mais capacitados. Une-se àqueles que, teoricamente, dignificam seu trabalho ou mostram competências que o próprio não detém. O efeito colateral dessa escolha é o favorecimento de alguns, o benefício  seletivo, a discriminação e a exclusão de quem, de boa vontade, está em sala de aula cumprindo um papel: de aprendiz em busca de conhecimento.

 

 

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
João Pessoa - PB
Atualizado às 16h45
30°
Nuvens esparsas Máxima: 30° - Mínima: 24°
34°

Sensação

20 km/h

Vento

66%

Umidade

Fonte: Climatempo
Vagas de Emprego na Paraíba
jooble
Nailson Junior
Municípios
Últimas notícias
Mais lidas
ANUNCIE AQUI
Igreja Nova Vida