Infância

A idade do bairro

“Por cerca de 30 anos rondei por suas artérias, respirei seus ares, curti suas paisagens, consumi as histórias de seu cotidiano bucólico e pacifico. Acompanhei atentamente sua evolução, cresci junto. Toda a vivência daqueles dias anda viva e emoldurada, feito quadros na parede da memória”

Edson França

Edson FrançaNas Entrelinhas

22/11/2021 15h48
Por: Nailson Júnior
Fonte: Edson de França

“Por cerca de 30 anos rondei por suas artérias, respirei seus ares, curti suas paisagens, consumi as histórias de seu cotidiano bucólico e pacifico. Acompanhei atentamente sua evolução, cresci junto. Toda a vivência daqueles dias anda viva e emoldurada, feito quadros na parede da memória”.



Volto de vez em quando ao bairro em que nasci. Jardim Planalto, zona oeste da capital João Pessoa. Subúrbio. Nasci e cresci por lá. Por cerca de 30 anos rondei por suas artérias, respirei seus ares, segui seus personagens e suas rotinas, vivi seus perrengues, fotografei com o olhar suas rinhas de amores ódios fraternos, curti suas paisagens, consumi as histórias de seu cotidiano bucólico e pacifico. Acompanhei atentamente sua evolução, cresci junto. Tudo aquilo, vivência, anda vivo e emoldurado, feito quadros na parede da memória.

Ouvi dos mais velhos, os pioneiros, que toda a área fazia parte de uma extensão de terra de propriedade do sr. João Chagas, uma espécie de último fazendeiro das cercanias da crescente João Pessoa, resistente diante da urbanização que pedia passagem. Com o loteamento, o casario que se formava e crescia para abrigar quem chegava, sobrou um sitiozinho com coqueiros, mangueiras, cajus, mata nativa e uma cerca viva de aveloz. Esse é o dado bucólico de minhas primeiras memórias.

Mesmo sendo eu um descendente de áreas rurais já totalmente desgarrado - mais para urbano que sitiante - minha infância teve a companhia do Sítio de Seu João Chagas. O local atraía. Havia jacas e macaíbas por lá, peixinhos na lagoa, mas havia seu João, sua vigilância, cães, ira e armas a proteger seus domínios. Se bem que, vez ou outra, um caju escapava da cerca.

Lá por aqueles subúrbios estudei e aprendi lições de rua. Por lá bati pernas, cruzei suas ruas, ultrapassei seus limites. Vim de um tempo anterior as rixas de bairro, não tínhamos território demarcado por gangues, como as que infelizmente vi nascer ainda durante a minha adolescência. O umbigo no Jardim Planalto, as pernas andejas, o olho curioso e a disposição de ultrapassar limites levaram-me, junto aos parceiros de idade, a voar por outros campos. Conhecíamos, antes da idade da responsa , todas as extensões possíveis do território. Por aventura e irresponsabilidade.

A idade do bairro é a nossa idade cronológica medida pela convivência, somada ao nosso estado de ânimo, energia, expectativa, esperança e realizações. Essa equação é diretamente proporcional, no caso dos bairros de população mais abastada e futurista. Por lá, dá-se a impressão, a evolução do bairro parece seguir a idade e o viço dos moradores da infância à madureza. Não importando a rotatividade, a fuga de moradores e promessas, o bairro mantém aceso o poder de mudança progressiva.

Nos bairros pobres, a modernidade e a evolução parecem estar de certa forma ligadas biologicamente e socialmente, por pura resignação, a seus habitantes. Ao passo que gerações envelhecem ou arrefecem suas tesões, o bairro parece acompanhar o ritmo ou vice-versa. Mesmo com a rotatividade de moradores, sobrevivem permanencias na pele e nos hábitos daquela gente. O destino das pessoas está definitivamente atrelado ao bairro. Talvez, penso, seja essa uma simbiose honesta e objetiva do ponto de vista econômico. A renda do povaréu não sofre melhorias significativas. Quando alguém melhora, muda de bairro e a força jovem se vai com ela. O que fica para trás vai sobrevivendo à marcha lenta, sem uma bateria que lhe reative as forças.

Nos tempos que lá vivi era um bairro em construção e, como todo bairro pobre, continua. Casas de pobre nunca estão prontas, sempre há um remendo a fazer e tudo vai ficando bem pra depois. A casa em tempo de espera. Nas comunidades, as casas mais nobres florescem e logo perdem o fulgor e vão desmilinguindo. Ao passo de alguns anos todas se parecem em igual estado de decadência. Vistos de algum ponto, certas vias enladeiradas parecem um outdoor cuja paisagem não muda ao peso dos anos. Se havia alguma parede rebocada, hoje apresenta feridas de tijolo vermelho em sua epiderme. Outras jamais viram nem um chapisco; o lodo e as ilhas de hera  e musgo compõem sua pele. 

Hoje quando revisito seus cenários, logo a partir da região do Regimento de Infantaria (15º RI), à altura da Praça Bela Vista, confesso, me bate uma certa melancolia. Nada mais há do frescor da juventude e da molecagem que era saborear o jambo do Cemitério São José ou jogar peladas nos campinhos de terra. É um estado de espírito, decerto, uma referência pessoal e intransferível do meu universo particular, mas acho bom recontar, deixar uma impressão.

A região mudou, é certo. Meu bairro, também. Há novos prédios, novos comércios, mas a transformação é lenta. Lentíssima. O que deixa aquelas ruas com um perfume antigo, um aroma que desperta reminiscências, feito uma foto de cores esmaecidas ou um quadro que vai perdendo as cores, amarelecendo, descascando, perdendo o viço.

O meu bairro envelheceu assim como meus pais e meus amigos de andanças. Assim como eu.

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