Edson de França

Sem ar, sem à tona

Abria os braços como um pássaro magro e imberbe a tentar captar o mínimo de oxigênio para enviar aos pulmões.

Edson França

Edson FrançaNas Entrelinhas

08/10/2021 17h00
Por: Nailson Júnior
Fonte: por Edson de França

Desde que passei a me entender por gente até aos 13, 14 anos, passei muitos dias “procurando” respirar. Essa atividade involuntária e natural  para um  humano saudável e distraído foi, por dias, um verdadeiro sacrifício para mim. Um tormento. Acordava às vezes, no meio da noite, agônico e, enquanto todos em casa dormiam, eu procurava algum lugar onde pudesse, abrindo os braços ao extremo, puxar airar os brônquios. Abria os braços como um pássaro magro e imberbe a  tentar captar o mínimo de oxigênio para enviar aos pulmões.

         Solitário. Talvez rezasse, não lembro. Talvez pedisse para que algo reduzisse aquela agonia. Uma intervenção superior e mágica, quem sabe, viesse a me dar a mão, trazer a tona. Nada acontecia. Aquietava-me e aguardava, tão pacientemente quanto possível, a luz do sol. Talvez com o abrir dos olhos do dia, a situação passasse e outra vez retomasse o ritmo normal da respiração.

Por anos, minha mãe se compadecia e procurava meios para livrar-me daquela condição. Sob sua batuta fui cobaia pra tudo. De chás milagrosos a casinhas de pernilongos com mel de abelha, tudo provei. Meus dias alegres de menino normal eram sempre ameaçados pela iminência de irrupção de uma crise de asma brônquica devastadora e paralisante. O menor sinal de rinite instava a desespero dos dias que viriam. De repente, não podia correr no campo, exercitar tiro alvo com baladeira, brincar de cuscuz, jogar pelada ou barra bandeira. Era tão somente um menino doente em sua solidão.

Penso que o estado de solidão a que a asma brônquica relega os portadores, foi suficiente para forjar uma personalidade arredia, solitária e que muitas vezes busca em seus próprios recursos soluções para superar situações adversas. Por outro lado, também cimentou uma personalidade tanto quanto empática. Que busca compreender, entender aquele que padece com os preconceitos, o isolamento, a discriminação, assim como com a enfermidade fragiliza e isola enquanto todo o resto parece saudável, imune, resistente, quase indestrutível.

Os relatos dos enfermos, assim como dos profissionais que estiveram ou ainda estão na linha de frente de combate ao coronavírus, trouxeram à lembrança aqueles momentos que faziam parte da minha rotina. Tive a última crise séria por volta dos 22 anos e, a opressão dos dias em que vivemos, vez por outra me dá apertos no peito, como que uma sugestão de falta de ar, ao pensar no meu passado e na aflição que muitos enfrentam nos dias que correm.

Falta de ar leva relega o ser ao estado de solidão extrema. O humano a sós com seus medos e suas fragilidades. Não há diálogo possível, negociação. Nem aquela mão solidária é capaz de levá-la à tona para respirar. Não há tona, não há ar além. A mim, quando criança asmática, só restavam como companhia os toques frios e precisos do relógio, os pios do peito e o canto do galos no amanhecer. Aos doentes os silvos e bips dos aparelhos, marcados pelo murmúrio arrastado da respiração difícil.

Nada se compara à luta pela vida que as pessoas que contraíram o vírus enfrentam. Nada mesmo. Por isso acho estranho esstranho o posicionamento negacionista, o pouco caso, a falta de empatia, a incompreensão e o comportamento suicida de gente que se mantém saudável. Saudável, mas não imune. 

Certamente não imaginam o drama ou se acham infalíveis e invulneráveis. A porção humana que os habita não se expande para além de seus belos e saudáveis corpos. O problema, sei, deve estar no caráter (sua falta, né?) e em algum defeito psicológico, algum desvio. Normalmente só nos damos conta dos dentes quando algum deles dói. Já percebi que, para alguns negacionistas, nenhuma dor é capaz de sensibilizá-los. Talvez não passaram ainda por uma experiência real de exclusão e solidão extrema motivada por uma enfermidade qualquer que seja.

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