Ética

Ética para o compartilhamento de imagens

A imagem de uma menina prestes a ser devorada por um urubu correu o mundo.

Edson França

Edson FrançaNas Entrelinhas

13/08/2021 14h52Atualizado há 3 meses
Por: Nailson Júnior
Fonte: por Edson de França

A imagem de uma menina prestes a ser devorada por um urubu correu o mundo. Lavra do fotógrafo sulafricano Kevin Carter, o instantâneo produzido em uma aldeia no Sudão, publicado em 1993, rendeu um prêmio Pulitzer ao autor e serviu durante muito tempo como elemento de sensibilização para a fome no continente africano. 

Em torno dela, contudo, armou-se uma polêmica que envolvia versões sobre desenlace da cena (o que veio depois do click) que, seria a menina (ou menino) ter virado comida de urubu e a morte, “por remorso”, do fotógrafo um ano depois. Fontes investigativas, porém, se encarregaram de desfazer esses mitos mostrando que nem uma, nem outra coisa aconteceram de fato. 

Punha-se em questão, claro, a atitude do profissional. Até onde vão os limites da profissão jornalística? As fronteiras éticas do ofício? Um flagrante é mais importante que uma vida? Não seria mais humano salvar a menina e esquecer o registro? Sabe-se, porém, que a menina não morreu ali, que o episódio serviu para agravar os problemas depressivos vividos pelo fotógrafo e por aí vai. 

O que subjaz ao caso e ganha apelos contemporâneos é a ética aplicada à produção  e compartilhamento de imagens. Vivemos em um momento, milhares de vezes maior que lá nos primórdios dos anos 90,  de produção e profusão de imagens. Toda e qualquer insignificância está passível de virar imagem, seja fixa ou com movimentos, há também um incentivo, um apelo desesperado por essa produção, uma avidez “consumista”, vamos dizer.

Vivemos a consumir imagens, ativa e passivamente, e todo estudo que redundou na artesania, na técnica, na edição e nos filtros que regulavam a circulação foram para a lata do lixo. Ou, no mínimo perderam espaço “profissional” de regulação. Em seu lugar, armou-se a barbárie. Misturam-se, grotescamente num desfile insano, palhetadas de espetacularização e pitadas de sadismo para alimentar a curiosidade mórbida e ensandecida. 

Se a sanha atingisse apenas os amadores, ainda poderia se engendrar uma desculpa esfarrapada qualquer. Pelo contrário. A insanidade é geral. Carniceiros emulam comportamentos como o personagem Louis Bloom (Jake Gyllenhaal), no filme O Abutre (2014), Dan Gilroy, - compõem o panorama contemporâneo - seja nas redes informais, seja nos grandes meios de comunicação - de produção e difusão de imagens, que primam pela exposição gratuita de situações vexatórias, constrangedoras, sangrentas e bizarras. 

Por meio das redes, via grupos e quetais, todos os dias somos surpreendidos por imagens e vídeos. Distribuídos descriteriosamente, os vídeos chegam a todos. São apropriadamente chamados de vírus e, por certa leitura, carregam (por comportamento análogo) a letalidade daqueles. 

Por um lado, vídeos de câmeras de segurança, por outro, flagrantes colhidos por personagens que não querem outra coisa das cenas a não ser expô-las ao mundo, chocar ou embevecer multidões. Inexiste, nestes últimos, a empatia pelas pessoas expostas, uma mínima vigilância ética e, muito menos, a condição da sociedade de reivindicá-la. Atados a esse carretel, resta-nos exercer a filtragem particular, reduzir a proliferação e a acessibilidade.

Transito por pessoas que, assim como eu, matam todas as correntes religiosas e pirâmides que chegam ao alcance de suas vistas. Abortam-nas. Não as deixam ganhar mundo. No exemplo que abriu esse texto, houve questionamento sobre o proceder do repórter fotográfico, do ponto de vista profissional e humano. Outros tempos. De lá pra cá, a democratização de acesso aos meios parece ter dilapidado o senso de humanidade e apagado em definitivo a noção do que seria ético e de bom tom.   

Por aqueles dias, a foto teve um objetivo. Talvez até bem cumprido por sinal: chamou atenção para uma problemática humanitária até hoje não resolvida. Nem naquele continente, nem nas pequenas áfricas incrustadas em países como o Brasil. Os compartilhamentos abusivos que grassam por esses dias não tem uma função imediata, a não ser satisfazer o que de mais sórdido vive no subconsciente da humanidade. Ou será tão somente uma manifestação doentia do consciente sádico?

 

por Edson de França

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