Pandemia

A escola em tempos de pandemia

A simples disposição não é o suficiente, por mais que tenhamos alunos voluntariosos e professores abnegados.

Edson França

Edson FrançaNas Entrelinhas

05/06/2021 08h07
Por: Nailson Júnior

As rotinas que envolvem o ato de estudar compreendem, além do óbvio acesso à escola, a disciplina, a assiduidade, a disponibilidade, a curiosidade natural e, claro, os meios para otimização do processo. Entre esses últimos incluem-se os aspectos estruturais - ambientes adequados, materiais didáticos e paradidáticos, por exemplo - e, também, a ação imprescindível de pessoas,conhecedores ou técnicos, que planejem e executem estratégias de ensino-aprendizagem de excelência.  

Complementando esse pacote, cabem, é claro, a garantia de regularidade e continuidade do processo. As descontinuidades, as fissuras ou falhas e as excepcionalidades acabam comprometendo tudo. Acabam, enfim,limitando, desestimulando e, por fim, comprometendo toda a efetividade do processo.  

A efetividade - mensurada através de domínios de conhecimento e desenvolvimento de habilidades e competências aos fins de um ciclo -  só se dá dentro do complexo pacote mínimo de condições que se exige. A simples disposição não é o suficiente, por mais que tenhamos alunos voluntariosos e professores abnegados. 

Ensinar não é sacerdócio. Estudar e aprender dependem de estímulos alheios - por vezes bem imperativos e superiores - às simples pré-disposições pessoais. Só a vontade não basta.

A pandemia que estamos atravessando impôs, sem dúvida, uma ruptura na normalidade das relações de ensino-aprendizagem. Se há um setor que sofreu um desgaste tremendo em seus contratos foi a educação. O pior: tendendo a colher danos irreparáveis. 

Costumamos gastar as palavras “construção” e “processo” quando falamos de educação. E, teoricamente falando, a educação se nutre das duas percepções para pensar, interferir e mensurar minimamente uma prática cujos resultados, por vezes, assume contornos subjetivos.

As situações relatadas por gestores e professores, nesse exato instante,fornecem uma dimensão, um indicativo preliminar, dos danos. A pandemia afastou “forçosamente” os alunos do ambiente escolar.  

As estratégias para contornar os problemas trazidos por essa imposição sanitária foram as aulas remotas (à distância), o ensino híbrido e, por fim, o acompanhamento dos educandos via distribuição de tarefas. Esta última para resolver um problema social, ou seja, o acesso dos alunos de “baixa renda”,sobremaneira no ensino público, aos recursos da tecnologia para os encontros remotos. 

Tais soluções, no entanto,  têm se mostrado pouco efetivas, revelam os profissionais, dadas às próprias ações reduzidas dos métodos. Eles têm,intrinsecamente, a faculdade de limitar os contatos e, em alguns casos,inviabilizá-los por completo. Em todas as situações, contudo, a problemática reside na baixa adesão  e na adequação  dos educandos aos modelos propostos. Revelam-se, entrementes, preocupantes estágios de "dispersão" e "evasão".Revelou-me uma professora do ensino privado que a participação

efetiva do alunado nas aulas online reduz-se a uma fração de 5%, numa turma de 50 alunos. Uso como exemplo e acentuo o setor privado porque é dele que se extrai e se vende a ideia de excelência no ensino, sobretudo na aquisição de conhecimentos que redundarão em sucessos profissionais futuros. 

Por seu turno, do setor público os exemplos não são animadores. De um lado, a baixa participação nas aulas online. Condição explicada,compreensivelmente, pela falta de um celular "moderno" que seja para o acesso a internet. Numa família de baixa renda, contou-me uma professora,“há um único celular na casa de uma de de minhas alunas, a genitora trabalha

com vendas e o aparelho é seu meio de trabalho”. Por outra via, verifica-se falta de acesso à própria rede. A pior de todas as ameaças ao contrato escolar, porém, também mostra suas caras: a temível evasão. É que as atividades entregues nas unidades de ensino, instrumento mínimo para manter o vínculo escolar, não chegam às mãos dos alunos, muitas vezes devido à falta de engajamento dos familiares no processo.

Falta de vontade e desestímulo dos alunos por um lado, "negligência" dos pais por outro. Peças de um sistema em processo de desarticulação, onde os professores também se vêem desassistidos e impotentes frente aos desafios.

Sistema esse que exigirá, ao final da pandemia, um esforço dobrado para reestruturar-se. 

Recolocar o trem nos trilhos para continuar avançando é ter ciência dos arranhões, fissuras e das perdas (algumas irrecuperáveis). A pandemia provoca mortes, limitações de convívio social,  redução de mobilidade e ameaça econômica aos trabalhadores e ao setor produtivo como um todo.

Afora as vidas perdidas, todos os outros itens têm condições de entrarem em processo de recuperação e obterem sucesso. Na área ensino-aprendizagem,ela compromete um projeto futuro, só realizável com base no contrato de convivência intra-escolar. O que se perdeu, se foi. Sua recuperação exigirá consciência, boa vontade e trabalho em prol de uma geração que enfrenta a pandemia.

por Edson de França

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