Fontes perdidas

A voz e a presença das fontes perdidas

por Edson de França (Jornalista, Poeta e Cronista)

Edson França

Edson FrançaNas Entrelinhas

07/05/2021 15h33
Por: Nailson Júnior
Fonte: Edson de França

Para a exploração ou discussão de qualquer assunto é necessária a recorrência às fontes básicas. Por vezes exaustivo, esse é o processo que constitui a base do método de contar ou reconstituir histórias. 

É das fontes que o escriba extrai a água que vai permitir captar fenômenos A luz esclarecedora que vai dar um norte e aclarar o caminho do texto. É lá que se encontram as pérolas mundanas ou raras em forma de informações.

Penso, para esse caso, primeiramente nos livros, nos documentos de toda ordem, nas fotos, filmes e por aí vai. Fontes primárias porém. De certa forma mortas e um tanto quanto empoeiradas.

Em alguns casos, contudo, é preciso buscar, recorrer, acessar pessoas que venham a elucidar ou despejar opiniões sobre um fato; que venham a acrescentar pontos de vista a uma apreciação ou aclarar um episódio com suas experiências de vida e produção. 

São elas a cacimba vívida, o sal e a luz solar que vai dar vida ao texto. É imprescindível e aconselhável, sempre que possível, ouvi-las.

Faço esse preâmbulo para saudar algumas fontes que, com suas experiências, conhecimento e sabedoria, deram vida a variadas produções. O mundo do jornalismo, da ciência, do cinema documental e até da ficção, devem parte de seu brilho a fontes vivas.

Seja pontuando assuntos, sejam  como personagens centrais da narrativa, são elas o extrato mais rico da cultura e o insumo mais precioso da produção do conhecimento veiculado pelas mídias.

Para o jornalismo corriqueiro temos as fontes oficiais, os mandantes da vez, os queridinhos de áreas fins, o discurso competente. Usando uma palavra da moda os “influencers genéricos” de toda ordem. Para determinados temas específicos, porém, é preciso ir mais longe. É preciso valorizar a voz, a inteligência e os arquivos encarnados, com suas vivências, experiência, sua ternura e criticidade. Até mesmo a rabujice e a aspereza dos entrevistados pode ser bem vinda. Cada vez que algum pesquisador, veterano ou neófito, se aventurava no campo da poesia popular - suas formas, estilos, modos de produção, aspectos históricos - o nome de Manoel Monteiro era pautado.

A enciclopédia viva da produção poética popular estava sempre ali, meio carrancudo, a  receber pessoas e sanar suas sedes de conhecimento com curiosidades e, vez por outra, um insight novo sobre o assunto.

Nas areias de Cabo Branco ficaram marcados os passos do velho senhor que ali habitava. Parentes próximos eram funcionários da casa e tive o prazer de entrar nas dependências antes que ela se tornasse Fundação. Por diversas vezes soube de grupos de estudantes secundaristas que visitavam a casa para colher depoimentos. Conta a história que, de seu retiro, José Américo era uma referência para políticos que o visitavam frequentemente. O cineasta Vladimir Carvalho registrou os passos do Homem de Areia,dimensionando-o também como uma importantíssima fonte histórica.

Pincei de memória essas duas figuras para exemplificar a força da fonte que, como frisei no princípio, são como bebedouros onde se busca saciar a sede que nasce com a curiosidade do saber.

 

Penso entrementes o valor de um Ariano Suassuna para as coisas da cultura popular nordestina, de um Câmara Cascudo para o folclore, de um Zuza Homem de Melo para a entremeios e redondezas da Música Popular Brasileira.

Fontes que, apesar das páginas escritas, se foram deixando este vazio que só seria preenchido com suas vozes e observações iluminando veredas e abrindo caminhos para novas análises e pontos de vista.

por Edson de França (Jornalista, Poeta e Cronista)

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