Crônica

Crônica de uns dias à toa

*Jornalista, cronista e poeta.

Edson França

Edson FrançaNas Entrelinhas

16/04/2021 15h45
Por: Nailson Júnior
Fonte: Edson de França*

"Entrar por uma viola e com ela sair cantando". Quase consigo ouvir

a voz de Neruda, poeta pacífico, aqui do lado de meu providencial leito de mar.

Atlântico de corpo e alma - nascido, criado e encarquilhado pela brisa marinha -

aprecio o poema como quem mira os horizontes procurando deuses abissais

que, vez ou outra, emergem para seduzir donzelas e tomar uma com os “mano”

num boteco à beira mar.

A voz de Cátia de França, um desses seres maragrestinos, dá-me uma

cantada. "Esse verde que chega a doer das águas de Tambaú...um dia vou

voltar". Da terra "vem-me a ânsia de viver e de ficar". Este vem a ser o final

de um poema, "Cemitério no campo", do alemão Herman Hesse. Parodiando

o pacífico Neruda, adentro-me, irmano-me feito peregrino, à caminhada com o

poeta e com ele sigo cantando.

“Nada vejo por essa cidade que não passe de um lugar comum”.

Salves, Zé Ramalho, oitenta anos de galopes rasantes. Passei a amar minha

terra quando conhecida como “terra das acácias”. “Badionaldo na praia do

Poço. O hotel Tambaú, que colosso. Cabo Branco e Astrea charmoso, são

recantos encantos enfim”, cantava o bardo Livardo Alves. Arrematava. “Tuas

praias formosas. Mulheres, acácias e rosas. É cidade jardim, poema sem

fim”. O Badionaldo continua lá pra quem quiser conhecer. O Ástrea minguou,

mas ainda é possível ver o mar a partir do mirante do Cabo Branco. 

Não conheço as acácias. Conheço os abricós de macaco da Praça da

Independência. Conheço ipês floridos do Parque Arruda Camara. Lembro-me

do abricó, fruta exótica, que o velho trazia do Horto Simões Lopes. Lembro

tanta coisa...Adoro o trour lírico, roteiro sentimental pelas ruas da cidade.

Retomo o poeta Eulajose Dias de Araújo, primeiro poeta nativo de minha

memória afetiva. Viajo na poesia de Polibio “varadouro” Alves. Sinto-me

joaopessoalmente como o poeta Lau Siqueira. De outra, como o Vital cantador

Farias, “Essa linda Philipéia, digo joãopessoalmente, que não sai da minha

idéia, que não sai da minha mente.  Aperto a mão de Caixa D’água no beco da

escola de artes do Tomás Mindelo.

Olhava dia desses os passantes - alguns apresados, outros em

velocidade de cruzeiro – no largo do Ponto de Cem Réis. Numa crônica

reportagem antiga, lá nos tempos de aluno da Comunicação, eu e o parceiro

Roberto Faustino,  referi-me ao jornaleiro Reginaldo e ao propagandista

Vitorino, este último que na época fazia reclames das lojas com um carrinho

munido de autofalantes. Já não estão mais entre nós. Mas, como cantava o

poeta argentino Jorge Luis Borges, quadros não recebidos ocupam um lugar

meio psíquico a quem foi prometido. As figuras do mundo ativo permanecem

vivas, pelo menos enquanto por aqui flanarmos. 

Quem passa pelo Cem Réis, com um mínimo de mediúnica

sensibilidade, sente a energia ancestral de quem por ali passou. Quem passou,

quem parou para contemplar ou se sentou para papear com amigos, quem

tirou seu sustento de alguma atividade econômica ali desenvolvida. O largo do

Cem Réis foi/é palco para discussão política, para propagar e ruminar as

 

novidades palacianas de perto e de além mar. Lugar onde os velhos digerem,

com comentários picantes ou reacionários, a tatuagem de Anitta e o uso do

Anita para prevenir a Covid-19.

Lembro-me da areia branca do terreiro da casa de tio Severino, numa

Tambaú desabitada, cuja nobreza estava nas areias pisadas pela gente pobre.

Os pobres venderam suas terras, premidos pela urgência desenvolvimentista

de colocar o luxo à beira-mar. “Além do limite do vale profundo que sempre

começa na beira do mar”. O mar é para todos, mas para morar na boca do

tsunami é preciso ser, no mínimo, desembargador e construir uma mansarda

com recursos públicos. 

“Em suas mansardas, mansões e motéis, os homens manejam os

seus carretéis. Novelos e linhas, labirintos e ruas, as mulheres e luas são

pedaços da noite”. A urbe, pessoa, é contraditória. Somos, gente como a

gente, contraditórios. Consumimos nossa alegria e carnavalizamos nossa dor.

Bradamos aos mundos que nem Chico Limeira. Nossas ruas, nossas praças,

nossa cidade, enfim, exibem denominações “impróprias”. Palmas para a

novíssima geração do canto paraibano. Sou essa cidade múltipla, véio, e isso

dá um orgulho danado. Daqui vejo o mundo, vejo meu mundo, sensibilizo-me e

canto. Cantando dessa folha-palco onde me sustento, abro o peito e meu canto

rasga o universo para atingir as estrelas. Há encantos e cantos a serem lidos,

revisitados, vividos.

*Jornalista, cronista e poeta.

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