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Sinais da Política

22/10/2019 10:06

A pedagogia dos mais antigos recomenda atenção aos sinais. Com base nessa premissa,
passamos a analisar o atual cenário político paraibano. Passada a eleição de 2018, o ex-
governador Ricardo Coutinho parecia se consolidar como o maior líder político da Paraíba.
Afinal, de uma lapada só, como diz o ditado popular, elegeu seu sucessor em primeiro turno,
fez um senador e derrotou o então arquiinimigo: o ex-senador Cássio Cunha Lima.
No alvorecer do novo ano, tudo indicava céu de brigadeiro para o ‘comandante’ do
denominado grupo ‘girassol’. Mas, por vezes, o tempo muda. E, assim como no campo da
aviação, na política é preciso, de quando em vez, mudar o rumo, sob pena de uma viagem sem
volta.
O primeiro sinal foi o revés do grupo girassol na Assembleia Legislativa da Paraíba, na eleição
da Mesa Diretora, em fevereiro deste ano. No episódio, o grupo amargou a primeira derrota
de 2019. A astúcia de meia dúzia de deputados, a partir de um ‘golpe’ bem articulado,
conduziu Adriano Galdino (PSB) à Presidência da Casa Epitácio Pessoa, e para os dois biênios.
Essa manobra não estava no script.
Em seguida, veio o segundo sinal: a formação de um bloco dentro da bancada governista,
como forma de resposta ao status quo vigente. Isto é, para os mais distantes de Ricardo, de
nada adiantaria ficar numa base governista quando, de fato, apenas os parlamentares mais
próximos do líder iriam, em tese, usufruir das benesses do governo. É que, à época, Ricardo
ainda dava as cartas, ou assim parecia.
O que acorria no Poder Legislativa era, na realidade, mais um sinal do que viria a acontecer
mais tarde: o rompimento político entre o governador João Azevedo e o ex-governador
Ricardo Coutinho. Era uma crônica anunciada. Afinal de contas, é visível na personalidade de
Ricardo a figura de um líder e, como tal, o gosto por comandar.
É inegável o papel político do ex-governador Ricardo no processo eleitoral que levou Azevedo
à vitória e, por conseguinte, ao Palácio da Redenção. Porém, tal fato não dá ao primeiro o
direito de querer conduzir a gestão, mesmo que de formo indireta. Mas, no inicio da gestão, a
impressão que se tinha era de que Coutinho continuava dando as ordens.
Todavia, aos poucos, João Azevedo, como que um maestro, foi dando o tom. Com mudanças
pontuais, começou a esboçar a nova cara do governo. Fatos novos, como a Operação Calvário,
levaram Azevedo a antecipar mudanças no secretariado. Mais do que isso, o novo mandatário
do Palácio revelou-se um político hábil e polido no trato com a classe política e na relação com
os demais poderes. É claro que tal atitude passou a incomodar o ex-governador e seus
seguidores, estes temendo perder espaços no governo.
A meu ver, o projeto administrativo e político inaugurado na gestão de Ricardo – pertinente,
vencedor, republicano e importante para o Estado – continua e avança no governo Azevedo. E
é com essa fidelidade ao projeto, ao conteúdo, que o governador mantém a Paraíba nos
trilhos do desenvolvimento. Digo isso, para dizer que, a princípio, não tinha motivo aparente
para Ricardo provocar o rompimento.
Ruptura – A gota d’água no processo de distanciamento, ou melhor, o fato que tornou
impossível a convivência entre criador e criatura foi o episódio que resultou na intervenção da
direção nacional do PSB no Diretório estadual da legenda na Paraíba. Vendo de fora, mais
parece um ato inconseqüente do ex-governador Coutinho, com o aval e o aplauso
desesperados de duas deputadas, a saber: Estela Isabel e Cida Ramos.

Em resumo, se fosse possível voltar no tempo, era recomendável a Ricardo manter uma certa
distância da administração estadual, deixando seu sucessor à vontade para tocar os destinos
da Paraíba. Mas não foi isso o que aconteceu, pois Coutinho continuava agindo nos bastidores

  • é difícil desencarnar do poder.
    Caso tivesse enxergado à frente, observado os sinais, Ricardo Coutinho teria ficado à margem
    do governo – repito – , mantendo-se aliado de primeira hora do governador de plantão, para,
    em 2020, ser o candidato de João Azevedo à Prefeitura da Capital. Essa atitude, a preço de
    hoje, daria a Ricardo 90% de chances de vencer o pleito, e em primeiro turno. Aí, sim,
    Coutinho, com um mandato de prefeito da Capital, poderia voltar a botar as mangas de fora.
    Agora, da forma como tudo aconteceu e se desenrola, o futuro dos girassóis é incerto.

Valter Nogueira

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