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Orgulho e preconceito

29/07/2019 18:19

Por décadas os norte-americanos dominaram a indústria automobilística, até a crise do
petróleo, na década de 1970, revelar que seus veículos eram obsoletos; modelos
ultrapassados, dimensões desnecessárias e grandes consumidores de combustível. Resultado:
os japoneses entraram em cena e dominaram o mercado com carros mais compactos,
econômicos, designers modernos e preços competitivos.
Atormentados com a derrota – pensavam que eram imbatíveis -, apelaram para tudo, até para
o preconceito. Promoveram uma campanha publicitária apelativa, mas sem sucesso, em que
imploravam aos americanos que não comprassem carros japoneses porque os veículos eram
pequenos, e que serviam apenas ao povo japonês que, em média, era de baixa estatura. E
arrematavam dizendo que o povo norte-americano era alto, grande, poderoso, assim como os
seus carros – nada disso surtiu efeito. Os ‘japa’ continuaram a dominar o mercado.
Aconteceu que a crise econômica e o bolso apertado foram levados em conta na hora de
comprar um carro novo, ou mesmo trocar de veículo. E, com isso, a indústria do automóvel
americana, com sede em Detroit, no Estado de Michigan, entrou em bancarrota. Detroit,
considera até então a Capital Mundial do Automóvel, virou uma cidade fantasma – hoje, está
em processo de revitalização.
Para resumir, em meio a decepção, raiva e preconceito, os americanos tiveram que engolir o
orgulho e se renderam a mentes brilhantes de novos executivos da General Motors (GM),
convocados para ‘salvar a lavoura’, por assim dizer.
A força e as inovações da indústria automobilística japonesa levaram a GM, no início da década
de 1970, a lançar um ambicioso programa tendo em vista a remodelação de todos os seus
produtos para que se tornassem mais econômicos e competitivos. Assim, os carros passaram a
ser mais leves e menores, sem prejuízo do conforto. Em 1984, a GM associou-se à Toyota para
produzir um pequeno carro, o Chevrolet Nova, que foi lançado no mercado em 1985. Foi uma
aliança até então inédita entre uma firma americana e outra japonesa.
A mudança ocorreu porque os novos executivos colocaram o dedo na ferida, ao dizer que não
era com preconceito ou apelações que o problema seria resolvido. A saída era outra, apontava
as novas mentes brilhantes da montadora: sair da zona de conforto, olhar além do umbigo,
perceber que o mundo mudou, que novas tendências surgiram com a exigência de um
mercado sempre em movimento, em ebulição.
A lição que fica é que, primeiro, é na derrota, nos revezes que conhecemos os verdadeiros
líderes, as mentes brilhantes, os verdadeiros campeões. Pois a derrota é pedagógica, deve nos
levar à reflexão: saber onde erramos, antes de colocar a culpa em terceiros. E, por fim, corrigir
as falhas, levantar e dar a volta por cima.
De forma contrária, e por vezes, os medíocres recorrem a bodes expiatórios para explicar seus
fracassos, justificar a incompetência. Lançam mão de preconceitos, de apelações e de toda
sorte de maldades. Mas, o mais importante, é que a verdade sempre aparece. E, os bons, dão
a volta por cima, com inteligência, sabedoria e, o mais incrível, jogando limpo.

Valter Nogueira

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