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Quem tem ideal não envelhece

22/06/2018 09:16

Achei, nos meus alfarrábios, texto que publiquei, em 3 de maio de 1987, na Folha de S. Paulo,
dedicado à Melhor Idade:
Na Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo procuramos sempre aliar a energia dadivosa dos
mais novos ao patrimônio da experiência dos mais idosos. E isto se consegue pela influência do
Amor Fraterno, que não é velho nem novo; é eterno porque é Deus. O Pai Celestial é Amor,
consoante definiu João, em sua Primeira Epístola, 4:8. E completava Zarur: “E nada existe fora
desse Amor”. Por isso, quem tem ideal não envelhece. O corpo pode baquear. Mas o Espírito está
sempre alerta. Jovem é aquele que não perdeu o Ideal no Bem.
Que é novo, que é o antigo, afinal? Nada! Immanuel Kant (1724-1804), o grande filósofo alemão,
autor de Crítica da Razão Pura, afirmava, mutatis mutandis, que o tempo é a grande mentira dos
homens. Portanto, acima de tempo-espaço e seus limites. Real é a Vida, que é eterna.
Sidónio Muralha, poeta português que se radicou no Brasil, onde viveu até o seu falecimento em
1982, louvou essa eternidade do valor intemporal no seu belíssimo “Cântico à Velhice”: “(…) É este
o cântico/ Dedicado ao que chamam/de velhice/ que é a infância/ lançada mais longe,/ onde o
horizonte/ se rasga e alarga (…)”.
A composição poética, a recebemos de Dona Helen Anne Butler Muralha, esposa do saudoso
poeta, que gentilmente também nos cedeu a foto do casal. Vamos, então, ao esforço bem-sucedido
de Muralha, por desmistificar o tempo, esse fantasma que atormenta o homem-ser-restrito, até que
um dia ele perceba que, na verdade, é Espírito Eterno, pairando acima de todos os grilhões da carne
perecível.
“Cântico à Velhice”
“Minha velha Portuguesa/ com o teu rosto marcado,/ mas sem medo da vida/ (e ainda menos da
morte),/ atira o teu cajado contra o tempo/ que passa e não tem presente,/ porque na segunda
sílaba do presente/ já passou a ser passado.
“Atira teu cajado, companheira,/ contra esse tempo efémero/ que não consegue apagar-nos.
“Nós corremos no sangue/ das novas gerações/ e os velhos são as crianças/ do futuro, /as
primaveras que vieram dos invernos,/ as flores que rebentam,/ que explodem da terra,/ como tu,/
minha querida portuguesa,/ que em cada ruga que tens/ existe um poema escrito/ tão grande e tão
profundo/ que é um cântico à velhice.
“Sim, um cântico sem fronteiras,/ porque os velhos/ têm asas imensas/ que voam no sentido
contrário,/ desafiando o espaço/ como quem roça o mar,/ mergulha para sempre/ mas deixa, perto
do sol,/ uma mensagem salgada.
“Velha portuguesa/ feita de oceano/ como todos nós,/ que somos navios,/ barcos, canoas,/ remos e
lemos,/ quilhas,/ algas e maresia,/ mastros de audácia/ que derrotam tempestades,/ caravelas,
descobertas,/ velha portuguesa/ descobre que o tempo/ tem medo do teu cajado/ e desanca as
horas,/ e desaba as horas,/ e desaba os relógios/ que são acidentes/indecentemente formais.
“É este o cântico/ dedicado ao que chamam/ de velhice/ que é a infância/ lançada mais longe,/
onde o horizonte/se rasga e alarga.
“Não esqueças, portuguesa amiga,/ de vergastares o tempo/com o teu cajado.”

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.
paivanetto@lbv.org.br — www.boavontade.com

Paiva Netto

José de Paiva Netto, escritor, jornalista, radialista, compositor e poeta, nasceu em 2 de março de 1941, no Rio de Janeiro/RJ, Brasil. É Diretor-Presidente da Legião da Boa Vontade (LBV), membro efetivo da Associa-ção Brasileira de Imprensa (ABI), da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter), da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), da International Federation of Journalists (IFJ), da Academia de Letras do Brasil Central, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, do Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro e da União Brasileira de Compositores (UBC).
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